
Inaldão precisa crescer para
acompanhar crescimento do
futebol barbalhense
Por João Marcelo
Batizado em homenagem ao médico e político que doou o terreno para a construção, o Estádio Lírio Callou, popularmente conhecido como Inaldão em homenagem ao ex-prefeito Inaldo de Sá, foi inicialmente pensado, na época da inauguração em 1983, como uma estrutura para atender o futebol amador de Barbalha. Até hoje, o estádio preserva essa essência ao ser palco, anualmente, do Campeonato Municipal.
Entretanto, com a profissionalização e crescimento do Barbalha Futebol Clube, que começou a disputar as principais divisões do Campeonato Cearense, a estrutura do Inaldão passou, com o decorrer dos anos, a não dar conta da grandiosidade de alguns jogos. Com mais de quatro décadas de existência, o estádio ainda é símbolo do futebol barbalhense. Mas o tempo, o crescimento das exigências profissionais e a falta de reformas significativas, revelam uma estrutura que encontra dificuldades para se adaptar aos moldes do futebol contemporâneo.
“Estádio raiz”
Quem passa pelas catracas do Inaldão e vai até as arquibancadas, logo percebe a aura típica daquilo que se costuma chamar de um “estádio raiz”. A proximidade entre torcida e campo, o ambiente acanhado e a vibração intensa das arquibancadas em dias de jogos criam uma atmosfera que intimida adversários e reforçam questões de identidade local. No entanto, por trás desse romantismo, há um cenário de carência estrutural.
Fotos: João Marcelo
As características de um pequeno caldeirão com capacidade para 3.401 pessoas, fazem com que os espectadores fiquem muito próximos de tudo, desde o gramado até ao setor da imprensa. Nas transmissões, o barulho da torcida se confunde com a voz do narrador, mas esse mesmo narrador precisa disputar espaço com o torcedor para conseguir ver o campo.
A cobertura de jogos no Inaldão exige criatividade e paciência dos profissionais de imprensa. As cabines danificadas, que não são utilizadas há mais de uma década, obrigaram as equipes de rádio e TV a improvisarem transmissões em uma área externa, em frente ao espaço originalmente pensado para eles. Os comunicadores descrevem o cenário:
“A gente coloca a mesa com a estrutura do lado de fora, puxa os fios e a energia de dentro da cabine. Mas é um espaço pequeno, se tiver umas quatro ou cinco emissoras, já atrapalha. O grande problema é que é uma parte onde os torcedores que ficam nas cativas podem ter acesso normalmente àquela área, então acaba atrapalhando. Aí quem trabalha na transmissão no Inaldão tem que fazer um certo malabarismo para poder ver o campo, porque tem o pessoal atrapalhando a visão, seja os torcedores nas cativas, ou mesmo os cinegrafistas que estão filmando”, afirma o repórter e locutor Toni Sousa.
“Existiam as cabines, com isolamento, mas infelizmente houve vandalismo e acabaram quebrando portas e vidros, não ficou tão seguro. A estrutura do estádio fez com que as equipes esportivas não usassem mais as cabines, elas agora vão para frente, em uma área que foi implementada para a imprensa trabalhar”, diz o repórter Leandro Santos.
“Se eu for colocar um pódio, eu colocaria o Romeirão em 1º, depois o Mirandão em 2º, por ao menos ter cabines fechadas para fazer as transmissões, e o Inaldão em último, por ser essa coisa mais raiz”, compara o repórter, que iniciou sua trajetória profissional justamente no estádio barbalhense.

Economia x performance
Quando impossibilitado de jogar em seus estádios, vários clubes da região, a exemplo do Guarani de Juazeiro, enxergam no Inaldão uma possibilidade de mandar seus jogos em um estádio barato, sem gastos com aluguel de espaço.
Felisberto da Fonseca, funcionário do Inaldão, vê nessa ausência de custos para jogar no estádio, o fator que o torna atrativo aos times de outras cidades. “Aqui o estádio recebe todos os jogos, sem qualquer objeção, porque a prefeitura não cobra quem venha fazer jogos aqui” afirma Fonseca. Em dias de jogos profissionais, os clubes apenas arcam com o valor do “quadro móvel” - gandulas, maqueiros, entre outros.

Foto: Eduardo Benjamin
Porém, segundo o presidente do Guarani, Zé Ivan, essa troca tem um preço. Embora seja financeiramente mais viável disputar partidas em estádios como o Inaldão, o custo técnico e físico acaba sendo alto. Jogar em Barbalha pode aliviar o orçamento, mas cobra um preço em performance e saúde dos atletas.
Zé Ivan diz que o gramado do Inaldão oferece riscos à integridade física dos atletas. “É um estádio sucateado, já há muitos anos. Precisa trocar o piso [gramado], colocar um piso mais moderno, ainda é muito duro. Inclusive pagamos o preço por isso, vários jogadores com lesão porque o piso é muito duro.”
O presidente defende uma reestruturação ampla, que contemple não só o Inaldão, mas também o Mirandão. Na reunião dos dirigentes dos clubes do Cariri com o governador Elmano de Freitas, o presidente relata que solicitou apoio do governo estadual para essas praças. “Nós também conversamos com o governador para que se fosse possível, fazer a reforma desses dois estádios, porque nos favorecia quando a gente tiver um jogo que não seja de grande porte, seria mais barato a gente jogar em Barbalha ou no Crato.”
Dentro de campo, quem joga sente as consequências. O jogador Levy dos Santos, que defendeu a equipe barbalhense em 2024 e 2025, é direto: “A estrutura não é das melhores. Há descaso e falta de investimento, o povo não valoriza o futebol no interior cearense, a verdade é essa, só valorizam na capital.”

Improviso, laudos e liberação
Assim como em outros estádios do interior cearense, a liberação do Inaldão para jogos profissionais costuma ocorrer após ações emergenciais voltadas apenas para atender aos laudos técnicos exigidos pela Federação Cearense de Futebol. De ano em ano, o cenário se repete, o estádio passa boa parte do tempo sem grandes trabalhos de infraestrutura, e às vésperas do Campeonato Cearense, recebe pequenos reparos de última hora para que o Barbalha possa mandar seus jogos no local.

Essa situação, descrita por jornalistas e torcedores que acompanham a rotina do Inaldão, mostra como esse padrão não é uma especificidade de algum estádio, mas sim uma prática que persiste em praças que carecem de um projeto sólido de infraestrutura. O jornalista João Batista afirma que o calendário dos clubes interioranos contribui para que a situação se perpetue. “Os times têm um calendário curto, então por muito tempo esses estádio ficam largados, onde não há, por parte dos poderes municipais, uma certa manutenção, e semanas antes de começar os campeonatos, ocorrem aquelas obras rápidas, que a gente sabe que não dão conta de tudo”, afirma.
"O banheiro é triste, é muito ruim", reclama o estudante Eduardo Benjamin
Eduardo Benjamin é estudante de jornalismo e cobriu todos os jogos do Barbalha como mandante no Campeonato Cearense de 2025. Ele relata que “todo ano tem essa questão, eles só maquiam os problemas para o estádio ser liberado”. Tais ajustes pontuais, na maioria das vezes realizados em cima da hora, servem apenas para garantir o mínimo necessário para cumprir os laudos de liberação.

As reclamações vão além do gramado ou das arquibancadas. A estrutura interna, como banheiros, são apontadas como carentes de melhorias urgentes. “O banheiro é triste, é muito ruim”, relata Eduardo.
Além disso, não é raro o sistema de iluminação do estádio apresentar problemas. Logo no primeiro uso profissional do estádio em 2025, na partida entre Barbalha e Cariri, válida pela 2ª rodada do Campeonato Cearense deste ano, houve um atraso de 42 minutos para corrigir uma falha nos refletores.
Problema na iluminação gera atraso em jogo entre Barbalha e Cariri (Foto: Reprodução/FCF TV)
Esse modelo, baseado em paliativos, impede que o estádio se torne uma praça esportiva com potencial para jogos maiores. Em partidas com maior apelo, contra Ceará e Fortaleza, a pequena capacidade e os problemas estruturais obrigam o Barbalha a abdicar do mando de campo e migrar para a Arena Romeirão, em Juazeiro do Norte, como aconteceu no estadual de 2024.

Tradicionalismo, modernização e futuro do Inaldão
Apesar dos inúmeros problemas, o Inaldão mantém uma aura própria, carregada de nostalgia, resistência e cultura popular. “Falar do Inaldão é um choque de visões”, resume o estudante e torcedor Erik Daniel. “Porque tem aquele lado mais folclórico de considerar um estádio raiz, um estádio que o time visitante tem dificuldade de encarar. Mas também tem aquele debate mais sério, que é a questão da melhoria do estádio.”
Erik acredita que o estádio cumpre bem sua função para eventos fora do profissional. De acordo com ele, o local é “honesto para as características de um futebol amador”, útil para partidas que não serão televisionadas, onde pessoas vão para prestigiar amigos e familiares em campo. “É um estádio que serve muito para esse tipo de coisa, para fomentar o esporte na cidade. Mas do ponto de vista profissional é algo a se pensar”, complementa Erik.
O estudante ainda relata a existência de um choque de visões sobre o futuro do estádio, em que alguns defendem a necessidade demolir para construir do zero, e outros, menos radicais, acreditam que “uma repaginada já bastaria”. O fato é que, para receber partidas de maior alcance no futebol estadual e nacional, é necessário se pensar numa reformulação.
Enquanto isso não acontece, o Inaldão segue estagnado no tempo, sem acompanhar as transformações que o futebol profissional exige. O estádio cumpre um papel social importante: abriga o futebol amador, acolhe clubes da região e resiste como palco de memórias e rivalidades locais. Entretanto, o improviso anual, a estrutura que ainda remete ao século passado, a baixa capacidade de público e a ausência de grandes investimentos evidenciam um espaço que precisa se atualizar para estar à altura da paixão de seu torcedor.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Juventude e Esportes de Barbalha, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço permanece aberto caso a prefeitura queira se manifestar.
Felisberto da Fonseca - Funcionário da prefeitura de Barbalha










