Por João Marcelo

Para encerrar esta reportagem, lanço minha visão pessoal após ter percorrido os principais estádios da região e escutado fontes que vivem o futebol de forma próxima e intensa. Este capítulo final reúne minhas sinceras impressões sobre a situação do Inaldão, do Mirandão e da Arena Romeirão, e propõe uma reflexão sobre o verdadeiro papel desses espaços na vida esportiva e social do Cariri.
Vejo os estádios Mirandão, no Crato, e Inaldão, em Barbalha, com potencial para, bastasse uma simples reforma de modernização, se reverter em belas praças de esportes. Entretanto, ao ouvir a opinião de profissionais e, principalmente dos apaixonados torcedores que seguem a frequentar os jogos, a impressão que fica é de estádios sem direção, que ano após ano, sobrevivem no improviso, refém da ausência de zelo por parte das gestões municipais.
Já na Arena Romeirão, em Juazeiro do Norte, a situação é a inversa. É impossível não se impressionar com a estrutura moderna, a fachada imponente e o conforto do local. Mas também é impossível não questionar para quem isso tudo serve. Eduardo Galeano diz em seu clássico livro Futebol ao Sol e a Sombra, que “o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável”, em um crítica clara à elitização cada vez maior do desporto. O público
Registro feito pelo meu primo, Murilo Nascimento, enquanto assisto a partida entre Crato
e Quixadá, no Mirandão,
próximo a torcedores
organizados.
público ainda é pequeno nos jogos e a agenda de eventos não condiz com o tamanho do investimento, os clubes locais parecem não terem sido os principais beneficiados pela obra. Há risco de permanecer um elefante branco se não houver planejamento sério e políticas públicas que valorizem os clubes e o torcedor da região.
O futebol nestas três principais cidades do Cariri pede socorro, se não por estrutura dos estádios e por performances esportivas pífias (ano que vem, em 2026, teremos os cinco clubes da região na Série B do estadual, não se pode ver isso com naturalidade), pede socorro por respeito mínimo ao torcedor que ainda segue ocupando esses espaços.
Antes de finalizar, não posso deixar de destacar que, em todas as visitas que fiz aos estádios, fui recebido com atenção, respeito e boa vontade pelos funcionários que ali trabalham, muitas vezes com recursos limitados e fazendo o possível diante das condições precárias. As críticas e cobranças que fiz e exibi ao longo desta reportagem não se direcionam a essas pessoas que me abriram os portões, mas sim ao topo da pirâmide, às gestões municipais, que têm a responsabilidade de garantir estrutura, manutenção e dignidade aos equipamentos públicos. A ausência de investimentos e planejamento vem de cima, das camadas responsáveis por agir em prol do benefício popular e que na prática, ignoram o papel social e esportivo que esses estádios representam para suas comunidades. Não acho justo que o peso da omissão pública atinja quem está no “piso”, lidando diariamente com os problemas que deveriam ser resolvidos por quem tem poder para resolvê-los.
O futebol do Cariri resiste, mas não pode viver apenas na resistência. É preciso mais do que paixão para sustentar um projeto esportivo regional. É preciso vontade política, gestões competentes e, sobretudo, respeito por quem nunca abandonou o jogo e fará de tudo para estar sempre presente na próxima partida, o torcedor.
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"Jogou, venceu, mijou, perdeu". Túnel de acesso do Estádio Mirandão me fez lembrar novamente de Futebol ao Sol e à Sombra, do Eduardo Galeano. (Foto: João Marcelo)