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No Mirandão, falta de iluminação reflete desvalorização da gestão

com estádio municipal

Por João Marcelo

O Estádio Municipal Governador Virgílio Távora, mais conhecido como Mirandão, por estar localizado no bairro de mesmo nome, foi fundado em 09 de maio de 1982. A primeira partida foi disputada entre as equipes do Ceará e Bangu, com vitória dos cariocas pelo placar de 2 a 1. A reportagem visitou o estádio em três ocasiões durante a realização do Campeonato Cearense Série B de 2025.

Fotos: João Marcelo

Infraestrutura antiga gera desafios​

Os relatos dos comunicadores que frequentam o Mirandão para realizar transmissões e coberturas apontam problemas estruturais que comprometem o exercício da profissão. Para Carlos Maxsuel, locutor esportivo, trabalhar no estádio é relativamente tranquilo, mas está longe do ideal.

 

Carlos Maxsuel - Locutor esportivo

O calor é um problema bastante relatado, as cabines de imprensa carecem de climatização, o que torna o trabalho dos profissionais desconfortável, especialmente em dias de temperaturas mais elevadas. "Na nossa região o calor é muito intenso", pontua o jornalista esportivo João Batista, ao comparar com a Arena Romeirão, que dispõe de cabines climatizadas.

O ambiente abafado e a falta de ventilação adequada impactam na concentração e no desempenho dos jornalistas esportivos que trabalham nas cabines e precisam narrar e comentar os jogos durante longos períodos. (Fotos: João Marcelo)

Além das cabines sem climatização, a acessibilidade também é um fator de dificuldade. Segundo o repórter Pedro Paulo Vieira, o deslocamento dentro do estádio é um desafio. "Para sair da cabine de transmissão e ir até o gramado, é preciso fazer um arrodeio grande. Quem quer comprar uma água ou lanchar também precisa sair do estádio para [depois] voltar. É um estádio muito grande, mas que precisa urgentemente de uma modernização".​​

 

Outro problema citado é a internet. A dificuldade de conexão no Mirandão compromete as transmissões ao vivo, obrigando os profissionais a recorrerem a provedores externos ou a soluções alternativas. "Quedas de internet acontecem frequentemente. A gente precisa entrar em contato com as provedoras para garantir um aparelho só para nossa equipe. Ainda assim, é preciso estar sempre preparado para um plano B e até um plano C, que pode ser usar a internet do celular", destaca o repórter Leandro Santos.

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Para Ivan de Oliveira, torcedor do Crato, os problemas do estádio vão muito além das dificuldades da imprensa: "Precisa de reforma em tudo. Qualquer pessoa que entre hoje no estádio vai ver que está um descaso, praticamente abandonado", diz. 

Ainda mais contundente, Erlânio Rodrigues diz que ainda frequenta o estádio por amor ao time, e apela às autoridades por mais valorização ao local. 

Erlânio Rodrigues - Torcedor

Condição do gramado afeta desempenho

 

O gramado do Mirandão é outro ponto que tem gerado críticas. A superfície irregular, marcada por desníveis, e a presença de formigueiros, são uma constante na opinião dos entrevistados. ​ "Você vê que tem uma área que é mais alta e uma área que é mais baixa, então isso dificulta pro jogo", aponta Carlos Maxsuel, destacando como as irregularidades do campo prejudicam a fluidez das partidas. ​​

Foto: João Marcelo

O locutor e repórter Toni Sousa também contribui com uma argumentação nesse sentido. De acordo com ele, a precariedade do gramado afeta equipes que possuem um estilo de jogo mais técnico, como é o caso do Crato. Toni analisa que o time cratense, ao apostar na posse de bola e na troca de passes para construir suas jogadas, encontra dificuldades para desenvolver seu futebol diante das condições do campo. "Se o Crato jogasse num campo com a qualidade melhor que a do Mirandão, poderia estar também em uma situação melhor no campeonato. Se jogasse no Romeirão, por exemplo, acho que estaria numa condição melhor na tabela de classificação", pontua.

Coincidência ou não, as partidas contra Caucaia e Quixadá, válidas respectivamente pelas quartas de final e semifinal do Campeonato Cearense Série B, foram realizadas na Arena Romeirão, às 20h, devido aos problemas de iluminação do Estádio  Mirandão. O Crato empatou em 0 a 0 com o Caucaia, classificando-se nas penalidades máximas. Contra o Quixadá, a equipe cratense saiu vitoriosa por 3 a 1.

No pós-jogo contra o Caucaia, o técnico Felipe Soares não escondeu a preferência em jogar na Arena de Juazeiro do Norte. “Como treinador, a gente quer ter o melhor time possível, jogando nas melhores condições possíveis, com toda a certeza o gramado é um fator determinante para o desempenho da equipe. Acho que o Romeirão é a melhor opção”, afirmou o técnico, em entrevista ao canal Replay do jornalista Toni Sousa.​

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Para além dos desníveis do Mirandão, ainda há a presença de formigueiros no campo. O repórter Pedro Paulo Vieira relata que a situação já lhe causou transtornos durante as transmissões esportivas. "Muitos formigueiros no gramado, as formigas atacam a gente", descreve.

Banheiros e ausência de iluminação

Outros problemas estruturais impactam diretamente o conforto de torcedores e profissionais. Exemplo disso são banheiros, tanto para a imprensa quanto para o público. "Os banheiros estão precários. Isso precisa ser uma prioridade em qualquer reforma futura", enfatiza Maxsuel.

 

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A falta de iluminação também compromete a estrutura atual do estádio. Durante a pandemia, houve um episódio de furto aos cabos de energia das torres. Anos depois, a situação ainda não foi resolvida, o que impossibilita o Mirandão de receber jogos noturnos, e as partidas precisam acontecer antes do anoitecer. 

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Nas imagens é possível ver ausência de portas nos sanitários e de itens como papel higiênico e descargas, o que têm incomodado quem precisa utilizar os equipamentos. (Fotos: João Marcelo)

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“O público vem, apesar do horário. Os jogos precisam começar cedo para terminar cedo, porque ao anoitecer não tem como acontecer a partida”

Carlos Maxsuel

Locutor

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“Com iluminação, poderia ter jogo às 4h da tarde, porque às 3 horas é um sol muito quente”

Ivan de Oliveira

Torcedor

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Os jogos tem que começar às 3h da tarde porque não tem energia nessas torres, é um absurdo, descaso total”

Erlânio Rodrigues

Torcedor

Falta de energia elétrica nas torres do Mirandão impossibilita jogos a noite (Foto: João Marcelo)

A liberação do estádio e as "gambiarras" para jogar

 

Dentro do contexto infraestrutural, a liberação do Estádio Mirandão para partidas oficiais é um tema que divide opiniões. Enquanto alguns reconhecem que há um esforço  para garantir a viabilidade dos jogos, outros apontam que a estrutura do estádio ainda apresenta problemas que comprometem a segurança e o conforto de atletas, torcedores e equipes de transmissão.

Para o repórter Pedro Paulo Vieira, a liberação do Mirandão pode ter sido positiva para o torcedor, que tem a possibilidade de acompanhar os jogos de seu time de perto, mas, para quem trabalha no estádio, a realidade é diferente. O jornalista é categórico ao se posicionar contrário à liberação do estádio sem que haja uma reforma para corrigir os problemas estruturais. Ele ressalta que, diante da decisão dos órgãos responsáveis, cabe à imprensa continuar cobrando melhorias.

 

A liberação dos estádios segue critérios exigidos pela Federação Cearense de Futebol (FCF), aplicáveis em qualquer praça esportiva que receba competições profissionais. Segundo Elmo Mariano, coordenador de competições da entidade, são necessários quatro laudos fundamentais para garantir a aptidão de um estádio: engenharia, segurança, bombeiros e vigilância sanitária. Além destes, há um laudo técnico que avalia as condições do gramado, vestiários e estrutura geral. 

No entanto, a emissão desses documentos nem sempre acontece com a antecedência ideal, pontua Elmo, citando como exemplo recorrente o Estádio Almir Dutra, em Maracanaú, onde, segundo ele, os responsáveis iniciam a busca pelos laudos apenas às vésperas do início dos campeonatos. “Todo ano é nos 47 do segundo tempo, faltando uma semana para haver os jogos, é quando eles começam a correria atrás de laudos para liberar o estádio”, afirma o membro da Federação.

Para João Batista, a liberação acaba acontecendo por necessidade. “Se a gente for esperar uma estruturação maior, essa liberação nunca vai ocorrer. Isso porque seriam necessárias reformas muito grandes, e aí tem toda a pressão das diretorias para mandar jogos nos seus estádios, tem a torcida que também quer ver o time de perto. Então, num cenário ideal, a gente sabe que tem muitos estádios que não poderiam ter essa liberação, só que, como eles conseguem deixar as condições aptas pelo menos para alguns jogos, os estádios conseguem a liberação.”

Toni reforça essa visão, destacando que o processo de liberação ocorre sem uma solução definitiva para os problemas estruturais. “O ideal realmente era ter uma reforma no Mirandão, ter uma reforma no Inaldão, dar uma condição de trabalho para a imprensa, para as equipes, acomodação para os torcedores, mas dentro das limitações, aqui no Mirandão, foi feito o que dava pra fazer para o Crato jogar em casa”, relata o profissional.

Ainda assim, ele acredita que as liberações feitas dessa forma acabam contribuindo para um círculo vicioso de descaso com os estádios da região. “Essas chamadas gambiarras, isso não é um privilégio do Crato, isso acontece também em outros municípios do Estado do Ceará. Porque é feito uma coisa emergencial, libera, termina o campeonato e as administrações esquecem dos estádios, e aí espera-se um novo campeonato para começar todo esse corre-corre novamente.”

Toni ainda cita que a administração municipal do Crato se esforçou para buscar avanços no estádio, ainda que paliativos. “Houve uma força-tarefa este ano, na nova gestão do (prefeito) André Barreto, com a Eudiane Pinheiro como secretária de esporte, pra tentar fazer obras emergenciais e ter os laudos para liberar o Mirandão para os jogos do Crato. Mas ainda é uma situação com limitações, o Mirandão necessita de reformas para que o estádio tenha uma condição melhor, tanto para receber as equipes, como também a parte de imprensa”, conclui Toni Sousa.

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Nesses contextos, a liberação acaba acontecendo de forma emergencial, sem que os estádios passem pelas reformas estruturais necessárias antes do início das competições, o que reforça as críticas de profissionais que trabalham e convivem diariamente com limitações.

A pressa para corrigir problemas de última hora foi evidenciada logo no jogo de abertura do Campeonato Cearense Série B de 2025, entre Crato e Guarani de Juazeiro. Na súmula do confronto, o árbitro Paulo Vitor Lima registrou que “o vestiário dos árbitros estava inapto para uso”. Além disso, o início da partida sofreu um atraso devido a uma falha na demarcação do campo: uma das grandes áreas marcava apenas 13 metros, quando o regulamento oficial exige 16,50 metros. O equívoco precisou ser corrigido para que o jogo pudesse ser iniciado.

Erro de marcação na grande área ocasionou em atraso e gerou imagem curiosa na transmissão de Crato x Guarani, na primeira rodada da segundona do estadual

(Foto: Reprodução/FCF TV)

Pedro Paulo Vieira - Jornalista

O futuro do Mirandão

Diante dos desafios, os profissionais da imprensa e os torcedores do Crato seguem esperançosos por uma reforma ampla no Mirandão. Apesar das promessas de melhorias, ainda não há um cronograma definido para a revitalização do estádio. Enquanto isso, repórteres, locutores e comentaristas seguem enfrentando dificuldades para exercer seu trabalho, torcendo para que o futebol da região receba a atenção e o investimento que merece.

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A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Esporte e Juventude do Crato por meio da assessoria de imprensa, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço permanece aberto caso a prefeitura queira se manifestar. 

Aníbal Dantas - Presidente do Crato Esporte Clube

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Reportagem produzida em abril de 2025 na disciplina Laboratório de Jornalismo Digital do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Cariri (UFCA).

Texto e material multimídia: João Marcelo

​Orientação: Ivan Satuf

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