
Situação dos clubes e busca por elitização transformam Romeirão em elefante branco de Juazeiro do Norte
Por João Marcelo
Fundado em 1º de maio de 1970 sob o nome “Estádio Mauro Sampaio" e mais conhecido como “Romeirão” em alusão aos romeiros que visitam a cidade de Juazeiro do Norte, o local é um dos grandes marcos do futebol caririense. Desde a sua inauguração, o Romeirão logo tornou-se a casa dos principais clubes da cidade, como Icasa e Guarani de Juazeiro.
Em 2019, a estrutura foi demolida e, em 2022, foi reinaugurada no formato de arena, com custo estimado de R$ 80 milhões, financiados pelo Governo do Estado do Ceará. Hoje, a Arena Romeirão é o maior equipamento esportivo do interior cearense.
Inaugurada com a promessa de ser um grande e moderno centro para os clubes da região, a arena enfrenta um dilema: embora represente um avanço em termos de infraestrutura e modernização, também evidencia desafios financeiros e operacionais dos clubes locais.

De estádio a arena
A transição para a Arena Romeirão foi significativa em termos de infraestrutura. Com capacidade total para 17 mil espectadores, o equipamento é moderno e confortável. Cadeiras de boa qualidade, banheiros limpos e grandes áreas de circulação são algumas das qualidades visíveis para o torcedor.
Fotos: João Marcelo
Vale observar que, apesar da capacidade total da Arena Romeirão ser de 17 mil pessoas, hoje, os laudos do estádio permitem apenas 10 mil espectadores por jogo. Isto se dá, pois, mesmo com a estrutura física da arena concluída, ainda não foram realizadas algumas instalações necessárias para a liberação do público em sua totalidade. Entre esses aspectos, estão o sistema de vigilância interna e as catracas com reconhecimento facial na entrada.
Apesar da modernidade, alguns torcedores que frequentam o local desde antes da modernização, como Alberdan Souza, responsável pelo perfil “Bora Icasa!” no Instagram, têm um sentimento nostálgico ao falar do antigo Romeirão. Para ele, a modernização trouxe a perda de um ambiente mais informal, onde o contato do público e a presença de ambulantes faziam parte da experiência do torcedor.
Alberdan Souza - Torcedor

Custos operacionais e desafios econômicos
Enquanto a arena promete maior conforto e segurança, ela também impõe desafios financeiros tanto para os clubes quanto para a administração do estádio. O alto custo de operação, principalmente devido à falta de conclusão total das obras e infraestrutura como catracas eletrônicas e câmeras de segurança é um obstáculo para as equipes da região.
A situação chegou a um ponto crítico em que os clubes precisavam pagar por serviços como limpeza, segurança e alimentação, além do aluguel do espaço. Isso os levou a solicitar apoio do governo estadual, o que resultou, após muita cobrança, em uma medida anunciada pelo governador Elmano de Freitas em março de 2025: a isenção das despesas operacionais para os clubes do Cariri. Em uma reunião com representantes das equipes, o governador afirmou: "O Romeirão foi feito para que os fãs do esporte de toda a região pudessem torcer pelos seus times em uma grande arena. Contudo, as equipes dos Cariri hoje, infelizmente, não têm condições de arcar com as despesas do estádio. O Governo do Estado ficará responsável por isso."


De acordo com o boletim financeiro da partida entre Cariri e Iguatu, do dia 03 de fevereiro, pela 4ª rodada do Cearense Série A, o clube de Juazeiro do Norte obteve uma receita de R$ 5.149,00 e uma despesa de R$ 29.582,80, o que resultou em um prejuízo de R$ 24.433,80. Das 11 partidas realizadas na Arena Romeirão das séries A e B do Campeonato Cearense de 2025, os clubes caririenses registraram um déficit total de R$ 84.982,85, com prejuízo médio de R$ 7.725 por partida.
Desses jogos, o único que obteve superávit foi o clássico entre Guarani e Icasa, no dia 23 de março, pela Série B. A partida levou 3.872 torcedores à Arena Romeirão, que foi a maior ocupação registrada no estádio durante o andamento das competições estaduais de 2025. A receita para o mandante foi de R$ 46.172,00 e a despesa de R$ 40.731,70, gerando um lucro de R$ 5.440,30. Contudo, o valor recebido pelo Guarani foi ainda menor, devido a um bloqueio judicial de 15% do resultado líquido. O Leão do Mercado arrecadou R$ 4.624,25.
Partida entre Cariri e Iguatu foi a que registrou
maior prejuízo durante os estaduais de 2025
(Foto: Reprodução/FCF)
Zé Ivan, presidente do Guarani de Juazeiro, descreve a situação anterior ao apoio do governo: "Porque o Romeirão ainda não está concluído 100%, gera um custo operacional muito alto. Os clubes estavam tendo prejuízo".
Com a decisão do governo, os custos operacionais, que antes eram responsabilidade dos clubes, passaram a ser custeados pelo governo, o que alivia as dificuldades financeiras das equipes locais. Além disso, foi anunciada a implementação de biometria facial no estádio, uma medida de segurança, já presente em grande parte dos maiores estádios do país, que promete modernizar a experiência para os torcedores e proporcionar mais tranquilidade durante os jogos. Apesar do anúncio, ainda não há previsão para a instalação do equipamento na Arena Romeirão.
Clássico entre Guarani e Icasa foi o único que registrou saldo positivo (Foto: Reprodução/FCF)

Situação dos clubes e adesão de público
Embora a isenção das taxas operacionais seja uma vitória para os clubes, existem outras questões que influenciam, por exemplo, no valor final dos ingressos. A taxa fixa de utilização do estádio varia conforme o público. Para eventos com até 2.570 espectadores, o custo fixo é de R$ 5.000, mas para eventos maiores, o custo passa a ser uma porcentagem da receita bruta da venda de ingressos — 13%, com o valor mínimo sendo os R$ 5.000 já mencionados.
Além disso, os clubes enfrentam a difícil realidade de públicos baixos, especialmente quando as equipes não estão em boas posições nas competições. Igor Sobreira, membro da “Loucos da Laje", torcida organizada icasiana, ressalta a situação: “Os times também não estão ajudando para trazer um grande público para pagar o preço que a gente paga pelo ingresso. Não que não valha o que estão cobrando, mas a situação dos clubes ajuda a não trazer tanta renda e tanta torcida. Se os nossos clubes subirem para a Série A, o ingresso não vai ser menos que 30 reais.”
Para José Gonçalves de Oliveira, a modernização afetou o acesso ao estádio, para a população de menor poder aquisitivo. A visão é a de que o modelo de arena atrapalhou a classe econômica que não tem condições de pagar um preço elevado pelo ingresso. Para ele, o valor dos bilhetes ainda é um obstáculo, mesmo com a ajuda do governo.
“Foram pagos os custos da Arena Romeirão, mas isso não quer dizer que chegou a baixar o preço do ingresso para o torcedor que vem assistir aos jogos. O preço do ingresso continua o mesmo, daqui a pouco volta lá pra cima de novo, mesmo com o Governo custeando as despesas do estádio. O preço do ingresso normalmente é muito alto para o poder aquisitivo da região”, afirma o torcedor do Icasa.

Jogos festivos e mais fatores atrativos
Se por um lado, garantir a adesão do público em partidas comuns do calendário regional ainda se mostra um desafio, o Romeirão revela grande potencial nesse sentido quando se olha para jogos festivos. Desde sua inauguração, o equipamento recebeu três dessas partidas.
A primeira ocorreu no dia 4 de outubro de 2023, em um amistoso comemorativo entre ídolos aposentados do Flamengo, contra um combinado formado por jogadores do Icasa e do Guarani de Juazeiro. O evento foi idealizado pelo ex-jogador Ronaldo Angelim, com o objetivo de arrecadar fundos para a construção do centro de treinamento do R4, equipe de futebol feminino fundada pelo ex-zagueiro.
A partida festiva atraiu um público expressivo, superando a marca de 10 mil torcedores, algo que os times locais raramente conseguem alcançar em competições oficiais. Esse contraste mostra que a Arena Romeirão tem potencial para receber grandes públicos, desde que ofereça atrações que despertem o interesse dos torcedores.
A discrepância entre os números de público em jogos festivos e partidas convencionais também reforça a necessidade de melhor estruturação dos clubes locais e da própria gestão do Romeirão. Conforto e qualidade são fatores essenciais, mas, ao mesmo tempo, é preciso olhar para a parcela do público tradicional, que via no antigo Estádio Romeirão, uma maior acessibilidade e um ambiente de comércio informal mais ativo.
Para começar a reverter esse cenário e garantir uma ocupação mais constante das arquibancadas, é necessário pensar em estratégias de atração, seja por meio de ingressos mais acessíveis, seja com experiências adicionais que tornem os jogos regulares mais atrativos ao torcedor, como a volta de vendedores ambulantes que transitam livremente pelo estádio, por exemplo.
José Gonçalves e Igor Sobreira - Torcedores

Nem tudo é perfeito
Apesar do conforto e visual moderno, nem só para elogios está a estrutura. Um ponto específico tem sido alvo de críticas de torcedores e frequentadores habituais da arena: a iluminação.
As falas convergem para quase um consenso, o projeto de iluminação da Arena Romeirão, apesar de moderno, foi executado de forma errada do ponto de vista técnico, ao menos na perspectiva do espectador.
Devido a forte luz, há quem evite olhar diretamente para os refletores, e o desconforto não se restringe ao público nas arquibancadas, mas se estende aos diversos profissionais que trabalham no local e enfrentam o ofuscamento constante durante as transmissões noturnas.
Essas luzes atrapalham quem tem astigmatismo ou algum problema. A posição atual dessa iluminação é absurda"
Alberdan Souza
A gente brinca até hoje que ninguém sabe qual é o engenheiro [que projetou].
Igor Sobreira
Às vezes eu utilizo até óculos escuros em jogos, quem projetou essa iluminação do Romeirão, acho que projetou mal.
Toni Sousa
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O ex-treinador do Icasa, Leandro Campos, incomodado com a forte iluminação da Arena Romeirão durante amistoso de pré-temporada em 2024 (Fotos: João Marcelo)

Futuro da Arena Romeirão e do futebol do Cariri
Embora o apoio do governo estadual tenha trazido um alívio imediato, a sustentabilidade a longo prazo da Arena Romeirão e do futebol no Cariri ainda depende de uma série de fatores. O presidente do Guarani de Juazeiro destacou a dificuldade de gerar receitas e patrocinadores na região. "Os clubes têm muita dificuldade para subir [de divisão] e conseguir acesso, porque as arrecadações, as receitas, não estão boas. Os clubes daqui de Juazeiro do Norte estão passando por um momento muito difícil", explica.
A implementação de tecnologias como a biometria facial e melhorias na infraestrutura do estádio são passos importantes para modernizar a experiência dos torcedores e atrair mais público. No entanto, a sustentabilidade financeira dos clubes dependerá de um equilíbrio entre o uso da Arena e a capacidade dos times de gerar receitas, atrair patrocinadores e construir elencos competitivos.
A Arena Romeirão representa, sim, um símbolo da modernização do futebol no Cariri, mas os desafios financeiros e operacionais que os clubes enfrentam mostram que, para que o futebol da região realmente se destaque, será necessário mais do que apenas uma infraestrutura de ponta, será preciso também um forte suporte institucional e uma gestão eficiente das equipes. O futuro do futebol no Cariri depende de como esses desafios serão enfrentados nos próximos anos.






















